Passado
o frisson pela estréia e empate na primeira rodada do campeonato nacional, cá
estou eu de frente ao computador, tentando falar sem excessos.
Não vou
assumir a postura de “corneta”, termo tão repetido nas redes sociais. Termo chato
até, porque ultimamente se a pessoa não vê o mundo cor de rosa com bolinhas
brancas, toma-lhe o título de “O CORNETA”,
ainda mais porque conheço o alto grau da “cornetagem” e sei que não passo nem
perto do pessimismo atribuído ao raros casos de “cornetagem mor”, aqueles que nunca vêem nada de bom. Separemos,
pois as coisas. Eu prefiro chamar o lado corneta, de lado pai da torcida, mais
rigoroso, bravo. Sou pai e mãe e acabo por tomar a postura de maior rigidez.
Vejo
que as redes sociais e de uma maneira especial o twitter, é utilizado mais como
espaço de desabafos, um diário da vida moderna, com a possibilidade de uma
sensação parecida com a de um divã. É ali que as pessoas se sentem ouvidas até
quando desfiam monólogos intermináveis. É ali que de certa forma as pessoas
sentem que de alguma forma sua opinião pode ser impactante. Talvez uma síndrome
nos esteja acometendo, a SEP - Síndrome do “Eu Polemizo”, ou talvez seja
somente o uso de um espaço particular, dentro da coletividade para dizer o que
pensa e se fazer ouvir de alguma forma, na rotina estressante do século 21.
Começo
repetindo que vamos encontrar interpretações das mais diversas sobre o que for,
em especial no assunto Futebol. O espaço é livre para leituras cada qual com
sua particularidade, vivência de arquibancada, expectativa mais ou menos
apaixonada de torcedores insanamente necessitados de manter ao sol seu clube de
coração.
Preocupa-me
a criação de estigmas ou a competição sobre o tamanho do sentimento de um ou
outro. Em minhas colunas falo sobre o CLUBE ATLÉTICO MINEIRO, o Glorioso das
Alterosas, impossível de medir ou descrever com extrema precisão o sentimento
que move os que carregam consigo essas cores.
Tranqüiliza-me
a diversidade. Dela precisamos muito, para que o mundo não seja um tédio, para
que haja um equilíbrio entre virtudes e aprendamos a bem usá-las.
O
grande escritor e jornalista Nelson Rodrigues, que falava de futebol como
poucos, já alertava lá em 1958, que o torcedor é uma das potências do futebol
brasileiro. Que este pode salvar ou liquidar um time, *“ É o
craque que lida com a bola e a chuta. Mas acreditem: — o torcedor está por
trás, dispondo”. Sim, o torcedor está por trás colocando ordem às
coisas, muitas vezes apontando caminhos. Conhecemos casos em que se ouviu o
torcedor e as coisas melhoraram. Não pode ser sempre, mas
também não pode ser nunca.
Desde
seu palpite errado à coerência de sua opinião. Do seu pessimismo ao seu
otimismo surreal. É melhor ouvi-lô.
O
futebol não foi invenção brasileira, mas vai saber ao certo se vindo da China
ou da Inglaterra havia um sopro de alma canarinha em sua origem, e que resolveu
reencarnar em cada brasileiro. Os deuses do futebol reservaram a nossas terras,
a parte mais gostosa do esporte, o DNA de mestres entendedores, geradores de
mitos, reis da bola. Nascer aqui já faz do perna de pau um ser propício ao
milagre do talento. Talvez seja a terra ou a nossa água que nos torne
automaticamente PHD’s no assunto e assim mais exigentes, menos alienados ou
alienados totalmente (rs).
Tiremos
de nós amantes do esporte o peso da culpa por entender demais e querer mais
ainda. E Nelson em 58, fazendo menção à seleção, disse que *“tratam do
craque, tratam da equipe e esquecem o torcedor, que está justificando cuidados
especiais”. É preciso cuidar do torcedor, falando do Galo e
especificamente, dos mais exigentes torcedores, é preciso atentar para os
alertas que saem pelas redes sociais. Não ignorar, menosprezar.
O Apelo é
para que o torcedor possa expressar o que pensa, analisa ou sente. Sendo mais
tolerante ou mais maleável. Felicidade sair da paixão cega, pro amor maduro,
aquele amor que gosto de mencionar em outros textos e na minha vida pessoal,
amor que sendo amor, é impossível não caminhar com repreensão. O Atleticano
amadureceu ao longo dos anos, é mais consciente, cuidadoso e pé no chão. Quem
ama cuida, repreende, adverte, é amor pra fazer crescer e ir além.
Nesse
momento temos em suma, o time que nos deu a LA 2013. Não é um time ruim. Este time
vibrava, sentia cada uma das partidas e nos dava a segurança do acreditar mesmo
que parecesse improvável. O time era composto por mais que 11 jogadores em
campo, dele faziam parte técnico, comissão, arquibancada. Pulsávamos juntos,
estávamos afinados. Equipe! Havia uma equipe.
Algo
se partiu antes mesmo da chegada do novo comandante. É urgente refazer o nó, o
elo da corrente. Quem tem hoje o poder de dar liga ao time é o comandante.
Se a
minha maior preocupação tem sido a insegurança quanto ao comando do time, é
porque acredito no poder de liderança das pessoas e creio que do banco de
reservas, seja com um olhar silencioso ou afetuoso, com um grito ou um abraço,
pode surgir mais que um esquema tático de sucesso. Pode surgir ou ressurgir a
força da alma que se apagou.
Se
os talentos individuais rateiam e não conseguem fluir, do banco pode emanar a
energia e fé que falte aos humanos profissionais da bola.
Se
não há como mudar o comando do time, porque não haver humildade para uma
mudança de postura do comando, que crie novas alternativas para o uso dos
mesmos ingredientes, resultando no sucesso da receita?
O
comandante tem a faca e o queijo nas mãos, basta encontrar o meio eficaz de
uso.
Que
“os cornetas” não silenciem jamais, porque é preciso enxergar as limitações
para de verdade superá-las. Que estes sejam o contrapeso quando o excesso de
cuidado da parte mãe, tentar proteger demais o erro do “filho”. Que seja a seta
e o alerta para que mudanças aconteçam de alguma forma.
Que
permaneça a certeza, de que o propósito de todos é um só, apontando falhas e
possibilidades ou aplaudindo e protegendo. Queremos o GALO no topo! Temido,
respeitado.
Que
os dois lados, o lado mãe e o lado pai da torcida sejam valorizados da mesma
forma. Cada um com seu papel, com seu tempero.
Saudações
Alvinegras!
Leide
Botelho 22/04/2014.
* Trechos da crônica O
QUADRÚPEDE DE 28 PATAS de Nelson Rodrigues para a Manchete Esportiva, 17/5/1958
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