quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Faca e o Queijo - 22/04/2014



Passado o frisson pela estréia e empate na primeira rodada do campeonato nacional, cá estou eu de frente ao computador, tentando falar sem excessos.

Não vou assumir a postura de “corneta”, termo tão repetido nas redes sociais. Termo chato até, porque ultimamente se a pessoa não vê o mundo cor de rosa com bolinhas brancas, toma-lhe o título de “O CORNETA”, ainda mais porque conheço o alto grau da “cornetagem” e sei que não passo nem perto do pessimismo atribuído ao raros casos de “cornetagem mor”, aqueles que nunca vêem nada de bom. Separemos, pois as coisas. Eu prefiro chamar o lado corneta, de lado pai da torcida, mais rigoroso, bravo. Sou pai e mãe e acabo por tomar a postura de maior rigidez.

Vejo que as redes sociais e de uma maneira especial o twitter, é utilizado mais como espaço de desabafos, um diário da vida moderna, com a possibilidade de uma sensação parecida com a de um divã. É ali que as pessoas se sentem ouvidas até quando desfiam monólogos intermináveis. É ali que de certa forma as pessoas sentem que de alguma forma sua opinião pode ser impactante. Talvez uma síndrome nos esteja acometendo, a SEP - Síndrome do “Eu Polemizo”, ou talvez seja somente o uso de um espaço particular, dentro da coletividade para dizer o que pensa e se fazer ouvir de alguma forma, na rotina estressante do século 21.

Começo repetindo que vamos encontrar interpretações das mais diversas sobre o que for, em especial no assunto Futebol. O espaço é livre para leituras cada qual com sua particularidade, vivência de arquibancada, expectativa mais ou menos apaixonada de torcedores insanamente necessitados de manter ao sol seu clube de coração.

Preocupa-me a criação de estigmas ou a competição sobre o tamanho do sentimento de um ou outro. Em minhas colunas falo sobre o CLUBE ATLÉTICO MINEIRO, o Glorioso das Alterosas, impossível de medir ou descrever com extrema precisão o sentimento que move os que carregam consigo essas cores.

Tranqüiliza-me a diversidade. Dela precisamos muito, para que o mundo não seja um tédio, para que haja um equilíbrio entre virtudes e aprendamos a bem usá-las.

O grande escritor e jornalista Nelson Rodrigues, que falava de futebol como poucos, já alertava lá em 1958, que o torcedor é uma das potências do futebol brasileiro. Que este pode salvar ou liquidar um time, * É o craque que lida com a bola e a chuta. Mas acreditem: — o torcedor está por trás, dispondo”. Sim, o torcedor está por trás colocando ordem às coisas, muitas vezes apontando caminhos. Conhecemos casos em que se ouviu o torcedor e as coisas melhoraram. Não pode ser sempre, mas também não pode ser nunca.

Desde seu palpite errado à coerência de sua opinião. Do seu pessimismo ao seu otimismo surreal. É melhor ouvi-lô.

O futebol não foi invenção brasileira, mas vai saber ao certo se vindo da China ou da Inglaterra havia um sopro de alma canarinha em sua origem, e que resolveu reencarnar em cada brasileiro. Os deuses do futebol reservaram a nossas terras, a parte mais gostosa do esporte, o DNA de mestres entendedores, geradores de mitos, reis da bola. Nascer aqui já faz do perna de pau um ser propício ao milagre do talento. Talvez seja a terra ou a nossa água que nos torne automaticamente PHD’s no assunto e assim mais exigentes, menos alienados ou alienados totalmente (rs).

Tiremos de nós amantes do esporte o peso da culpa por entender demais e querer mais ainda. E Nelson em 58, fazendo menção à seleção, disse que *tratam do craque, tratam da equipe e esquecem o torcedor, que está justificando cuidados especiais”. É preciso cuidar do torcedor, falando do Galo e especificamente, dos mais exigentes torcedores, é preciso atentar para os alertas que saem pelas redes sociais. Não ignorar, menosprezar.

O Apelo é para que o torcedor possa expressar o que pensa, analisa ou sente. Sendo mais tolerante ou mais maleável. Felicidade sair da paixão cega, pro amor maduro, aquele amor que gosto de mencionar em outros textos e na minha vida pessoal, amor que sendo amor, é impossível não caminhar com repreensão. O Atleticano amadureceu ao longo dos anos, é mais consciente, cuidadoso e pé no chão. Quem ama cuida, repreende, adverte, é amor pra fazer crescer e ir além.

Nesse momento temos em suma, o time que nos deu a LA 2013. Não é um time ruim. Este time vibrava, sentia cada uma das partidas e nos dava a segurança do acreditar mesmo que parecesse improvável. O time era composto por mais que 11 jogadores em campo, dele faziam parte técnico, comissão, arquibancada. Pulsávamos juntos, estávamos afinados. Equipe! Havia uma equipe.

Algo se partiu antes mesmo da chegada do novo comandante. É urgente refazer o nó, o elo da corrente. Quem tem hoje o poder de dar liga ao time é o comandante.

Se a minha maior preocupação tem sido a insegurança quanto ao comando do time, é porque acredito no poder de liderança das pessoas e creio que do banco de reservas, seja com um olhar silencioso ou afetuoso, com um grito ou um abraço, pode surgir mais que um esquema tático de sucesso. Pode surgir ou ressurgir a força da alma que se apagou.

Se os talentos individuais rateiam e não conseguem fluir, do banco pode emanar a energia e fé que falte aos humanos profissionais da bola.

Se não há como mudar o comando do time, porque não haver humildade para uma mudança de postura do comando, que crie novas alternativas para o uso dos mesmos ingredientes, resultando no sucesso da receita?

O comandante tem a faca e o queijo nas mãos, basta encontrar o meio eficaz de uso.

Que “os cornetas” não silenciem jamais, porque é preciso enxergar as limitações para de verdade superá-las. Que estes sejam o contrapeso quando o excesso de cuidado da parte mãe, tentar proteger demais o erro do “filho”. Que seja a seta e o alerta para que mudanças aconteçam de alguma forma.

Que permaneça a certeza, de que o propósito de todos é um só, apontando falhas e possibilidades ou aplaudindo e protegendo. Queremos o GALO no topo! Temido, respeitado.

Que os dois lados, o lado mãe e o lado pai da torcida sejam valorizados da mesma forma. Cada um com seu papel, com seu tempero.

Saudações Alvinegras!
Leide Botelho 22/04/2014.
* Trechos da crônica O QUADRÚPEDE DE 28 PATAS de Nelson Rodrigues para a Manchete Esportiva, 17/5/1958

Nenhum comentário:

Postar um comentário